Idosos, a bola da vez na eleição
É bem provável que não haja desafio maior para o ser humano do que envelhecer. Até o final do século passado, essa categoria de pessoas enfrentava as ordens do tempo, com pouquíssimos direitos e um vazio de recursos, tomados então pela chamada “decadência” essa, entendida como natural.
Os esforços institucionais de atenção aos “mais velhos” eram irrisórios; os conflitos de gerações inflamavam as invisíveis dores humanas e a subjetividade encanecia inerme; relegados, como se não houvesse mais lugar ou tarefas a desfrutar, enfim, como se não houvesse o amanhã.
“Para a sociedade, a velhice aparece como uma espécie de segredo vergonhoso, do qual é indecente falar.” Simone de Beauvoir, A Velhice, 1970. Na obra ela pede ajuda, para quebrar os silêncios culturais sobre as velhices desumanizadas que evidenciam o fracasso da civilização. Tornou-se um farol.
A evolução e a inovação demonstram que esse tempo passou. E não faz muito tempo. Nós, idosos, chegamos à idade do reconhecimento, do protagonismo, do vigor com o corpo treinado, com alimentação pensada, rotina vigilante, amigos, atividades, com estatuto econômico – ativos e duradouros!
A longevidade é uma potência confirmada por institutos de diferentes disciplinas, na prática, pelos indicadores demográficos e gerontológicos mais fortes, mais presentes, mais astutos, desafiando a antiga lógica da previdência.
Estudo do sociólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Paulo Baía, que destaca quando o tempo decide, ressalta o poder eleitoral dos idosos no Brasil contemporâneo e mostra que somos “uma força política em expansão”. Ele analisa o cadastro do eleitorado brasileiro, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, sobre o qual chamam a atenção alguns números.
O estudo do professor Baía observa dados reais. Não é estatística, não é pesquisa de opinião. Como ele diz: “leitura direta da realidade empírica e demografia convertida em política”. E digo eu, leitura de um sociólogo sobre os números que, de fato, somos. Chamo atenção para o ano de 2010, em que éramos 136 milhões de eleitores no Brasil. 2026, somos 158 milhões. Já o eleitorado 60 mais, 2010 eram 21 milhões, 15% do total, hoje são 36 milhões, 23% do total de eleitores do país, “reserva eleitoral gigantesca”, como notou o professor.
Quase 20 milhões de pessoas de 60 a 69 anos, voto obrigatório. Outras 16,5 milhões de pessoas 70 mais, voto facultativo. Sobre abstenção em 2022, destaque para dois mundos: entre 60 a 69 anos, a abstenção: 14%; entre os 70+ abstenção chegou a 59%. A média nacional atingiu 21%.
“Os idosos deixaram de ser margem. Tornaram-se centro. Um quarto do país eleitoral carrega o tempo no corpo, na memória, na linguagem, na forma de perceber o mundo.”
A sociedade amadureceu e a roda girou em favor da vida. A economia prateada ascende e acende, deu um salto triplo com vara e disrupção geral de culturas e indicadores. Carregados de experiência, conteúdo e força resiliente, ou seja, nesse Dia do Idoso, primeiro dia do mês de outubro, podemos dizer em alto e bom som, candidatos, pessoas com mais de 60 anos são a bola da vez.
Miguel Cançado, advogado e ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO). Ex-presidente do Conselho de Comunicação do Congresso Nacional
Fonte: https://opopular.com.br/opiniao/artigos/idosos-a-bola-da-vez-na-eleic-o-1.3462509
